sábado, 20 de novembro de 2010

Flutua



longe da superfície
já quase não sentia mais desespero
era tudo mar
de lá ouvia só
(tão só)
o silêncio do barulho

a paz se aproximava
e por ser assim
que possibilidade tentadora
mas ainda distante

ao alcance das mãos
desvira um pedaço de papel
que ao se encher de linhas
encheu o peito de ar
e o que parecia impossível
emergiu

o som da respiração vibrava diminuto
por sobre a onda
                                                  
20/11/2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ludo

não posso comigo!
nem quando deixo assinado
registrado em cartório
com testemunhas
brinco de cigarra
nem eu me agüento
tão formiga!

17/11/2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Novembro

Tudo faz sentido hoje.
Eu, minhas circunstâncias,
as pessoas e as circunstâncias delas.
Não seria possível o nó na garganta quando
recém passava da metade do dia
ou a paz ao fazer o chá quente
no meio da tarde.
Tudo tão verdadeiro hoje.
Mas não seria assim,
caso a massa de ar polar não tivesse vindo,
desafiando Novembro.

10/11/2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mais do mesmo

Na minha sala repleta de vozes e lamentos, a queixa quase sempre é a mesma: não ter forças para evitar repetir as cenas do passado.
Pois hoje, enquanto esperava a água do chimarrão chiar, eu cantarolava a música que tocava no som, enquanto minha filha me fitava e fazia suas coisas no tapete.
Uma companheira da outra.
A cena toda tão familiar...
A cozinha, a rotina, os hábitos que eram meus e de minha mãe quando eu era a filha.

Algumas cenas que se repetem jamais deveriam ser evitadas.

23/10/2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

...

Nessas coisas tão corriqueiras
como ir ao supermercado fazer as compras do mês
em meio a vasta oferta de marcas de sabonete
peguei um, qualquer um, com pressa... um muito conhecido e antigo no mercado sem fazer idéia do que isso provocaria em mim...

Meu avô sempre foi muito dado a limpeza. Seus hábitos de higiene viraram folclore na família. Quando ele rumava para o quarto de banho era certo que horas passariam até que ele saísse.
Cheiroso, vaidoso, cheio de manias.
Assim era meu avô.
Mas para bem além das manias de higiene, lembro muito da paciência dele.
Porque há de se ter muita paciência com netos, ainda mais se são três e meninas.
Ele tinha um escritório e trabalhava como despachante na época em que convivemos e contava as mais variadas histórias sobre seus empregos. Acontece que olhando para trás o vejo como um antropólogo talentoso que adorava o trabalho de campo.
Pequena, eu passava muitas tardes com ele andando pela cidade. Se fossemos longe dos arredores de sua casa, pegávamos um ônibus e andávamos até o final da linha. Eu ia sentada no banco da janela, atenta, curiosa, eufórica. Por vezes, ele me contava muitas coisas e noutras, calava e me deixava livre para contemplar o que eu bem quisesse.
Aprendi que avô é aquele que possibilita sonhar, que encoraja a magia, a imaginação, as luzes. Minha primeira vez numa sala de cinema foi acompanhada dele que fez questão de me apresentar para uma tela que ainda hoje é grande, mas naquele tempo, era imensa e lá estava ele com sua risada gostosa, os olhos fechando quando ria - como os meus - e a mão firme segurando a minha.

Minha avó, longe dele há tanto tempo, conta como se fosse agora o dia em que se conheceram. Ele, um louco apaixonado, andando atrás dela pela rua durante dois dias seguidos. Amor à primeira vista o dele. Com a permissão de meu bisavô o namoro começou e essa união durou até que a morte dele os separou. Bem, ele parecia amá-la instantaneamente desde que a viu na rua, mas e ela? Minha avó confessa que de imediato sentiu medo, mas logo dá um suspiro profundo e diz “puxa vida, ele foi a melhor coisa que me aconteceu na vida”. Compreendo quase que perfeitamente sua saudade e a inevitável vontade de reencontrá-lo, se bem que, pelo jeito, ele está sempre perto dela...

Gosto de pensar que ele está perto de mim também. De minhas irmãs, de meu pai, e até de minha filha que ele não conheceu. O sabonete comprado tão sem querer, justamente um dos seus prediletos, foi uma bela surpresa. Lá estava meu grande e amado avô, seu cheiro em minha casa e eu completamente em paz.

Salve.

18-10-2010.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sentença

Em dúvida, entregou-se.
E assim, fora condenada a anos de reclusão
na cadeia dos abraços.

13/10/2010
um sábio de sete anos me confidenciou:
as crianças tem quinze minutos de paciência.

13/10/2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cá entre sós

é como se eu visse lençóis sobre os móveis...

pela janela sem veneziana
um feixe de luz e umidade penetra
na minha alma, não na tua
sou eu quem vejo o madeiramento todo gasto

sinais do que fizeste com os anos?

talvez eu pergunte para as traças
cismei de que são elas as encarregadas de terminar a obra inacabada

15/09/2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Je t'invite

Teus convites doces e oportunos
Os aceito porque sei
depois deles meus olhos brilham

É tão bom gingar contigo

13/09/2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

tua visita no final da manhã
é uma benção
pra te ouvir melhor paro e me sento
a poeira também

ah se todas as manhãs fossem assim...

09/09/2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Minha tecelã miúda
que sorte a minha
pois todos os dias vejo teus dedos macios
percorrendo os inúmeros mínimos detalhes...
Tanta minúcia e delicadeza quase me enganam
mas teus movimentos bruscos e tão certeiros
não deixam restar a menor dúvida:
se trata da mais pura inspiração e ela é inoxerávelmente tua.

08/09/2010
enquanto apontávamos as pontas dos lápis pensávamos:
de que cor será a saudade?

08/09/2010

Micropore

ando pela casa tropeçando em mim
que ninguém ouça
mas tenho preguiça
torço para que alguém me junte
enquanto isso
vou colecionando roxões
eles marcam
mas não necessariamente
doem

08/07/2010

de olhos arregalados

tão só
quase da dó
mas daqui de fora
dá pra ouvir sua multidão
que não se cala nunca
nem durante o sono

08/09/2010

sábado, 28 de agosto de 2010

quando piso no ladrilho hidráulico
me transporto
em marrom e amarelo
vou pro campo
ouço teus bichos todos
as galinhas
os patos
os cavalos
os cães
vejo tua vó cuidando com carinho do fogo
e sinto o cheiro da lenha queimando
eras pequeno
mas eu já te conhecia
e te amava

27/08/2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Súplica

Então vai e cata no porta-luvas do carro aquele que diz assim ó:
“Eu só quero bagunçar a tua posse porque no fundo te amo tanto que não posso te ferir sem me sangrar”

12/08/10

terça-feira, 10 de agosto de 2010

é um, é dois e é três

primeiro a pane na cabeça
em seguida o nó na garganta
depois as pernas trêmulas
as mãos suadas
o peito apertado
o rosto encharcado
e fim.

só depois dele
é que começo de novo.

agora do início.

10/08/2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Esse olhinho que tanto olha, tanto diz e tanto ri ...
Muito por isso vez ou outra te aperto e digo:
- Olhinhos!

05/08/2010

Da inquietude fez-se o pouso.
Ó! Lar itinerante!

Não cessam as trocas de cenário
e tanto faz se frio ou se calor
ela tempera cada um deles caprichosamente.

Com sua alma vasta
com suas mãos grandes
com sua voz terna
abraça o mundo
enquanto que ele...

se regozija encantado.

05/08/2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ta aí o Jardineiro, cultivando sua mais nova Florzinha...

27/02/2009, presente de aniversário para o meu pai

Em mais uma primavera a ser vivida, tens diante de teus olhos um jardim frondoso.

Ouvimos que ele antes foi um sonho, talvez uma imagem dessas que temos quando descobrimos que podemos sonhar de olhos abertos. Tuas histórias contam que as mangas foram arregaçadas e assim as primeiras sementes foram plantadas. Na verdade se olharmos bem, as sementes já estavam ali. Um senhor com o mesmo teu nome tinha se encarregado do plantio delas e passou dicas preciosas sobre como adubar, semear, regar, colher, podar, iluminar, cuidar... Jardineiro astuto este senhor que ensinou tanto sobre o amor.

Para a frente é que se anda e no teu caminho, uma Violeta. Sabe-se que a lindinha colore e enfeita qualquer ambiente, desde que sejam atendidas suas necessidades, seus desejos. Somadas as vontades da dupla em questão, foram em busca do solo e com amor o prepararam para receber Girassol. Planta utilíssima, dela são ricas as sementes, as flores e os ramos. Voltada para o sol e da cor dele acrescentou mais vida e dinamismo ao jardim em formação. Para contrastar com o amarelo veio o verde da Avenca. Nela estão estampadas a delicadeza e a docilidade que provocam admiração mas não deixam de exigir cuidados especiais para bem se desenvolver. O tempo passou e em um inverno rigoroso floresceu a Azaléia. Típica do frio, enquanto muitas plantas repousam ela dá a sensação de vida, de energia.

Girassol, Avenca e Azaléia. Para manter seu crescimento nunca se teve notícia de um jardineiro tão zeloso. Atento as mudanças que vem com o passar do tempo, ele sempre esteve empenhado em buscar o clima mais adequado para o cultivo delas, mostrando que cada uma tem seu ritmo, sua maneira e que todas terão seu lugar ao sol. Sim, é preciso lutar por seu espaço, mensagem essa que entusiasma a todos. Nosso jardineiro acredita em campos vastos onde todos darão frutos. E, como todo o criador, ele possui expectativas, estas as melhores possíveis. Segundo sua crença, cada planta que há no mundo está sendo o melhor que ela pode ser por isso é importante que olhemos para o seu colorido e não para a falta de viço.

Minúcias, detalhes, aromas e uma qualidade incrível de espécies diferentes são muito bem recebidas em seu jardim. Dentre essas espécies estão a Figueira, árvore com grande capacidade de adaptação, na sua sombra se cultivam a paciência e o descanso. Nosso artista do verde foi aprendendo com ela que pode achar tempo e cumplicidade para um bom papo. Com o Plátano - magestoso, com vontade própria e gosto por marcar seu território - a semelhança está em ficar a mostra. Em todas as estações do ano lá estão como são: honestos, dedicados, espontâneos e íntegros.

Após inúmeras primaveras e nelas tanto aprendizado, nosso jardineiro tem feito o trabalho de um meticuloso arquiteto paisagista. Do bolso de seu avental saem recortes, surpresas, imagens, gravuras e pedaços de papel escritos a lápis, pequenos lembretes que guardam seus planos para novas e intrigantes composições.

Vida longa a esse profissional do zelo que nos parece um Salso Chorão, tanto corremos para chorar as mágoas com ele no inverno como nos deleitamos sob a brisa que bate em suas folhas no verão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Teu olhar me atravessou inteira

Um pensamento ligeiro me pegou:
Pena que falta tanto pro Fevereiro!

Largaríamos tudo
O telefone fora do gancho durante dias
E nós dois amanhecendo
Uma manhã atrás da outra
Pulando carnaval

28/07/2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um Julho desses...


31 de Julho de 2009. Dizem que não fazia tanto frio em Satolep desde 1975. São respeitáveis trinta e quatro anos. Guiada não por este dado histórico e meteorológico, mas muito mais pela sensação de frio, lembrei do dia em que nasci.
Minhas lembranças deste dia são narrativas que venho escutando desde então e somadas a elas, minha imaginação elabora detalhes, colore cenas. Tais narrativas são tão audíveis que basta ser inverno que me ponho a nascer de novo.

***

Lembro sempre de uma foto tirada em 29 de Maio de 1979. Nela, minha mãe figura comigo nos braços. Está segura, me deixando levemente arqueada para frente para que eu pudesse ser bem apreciada. Os cabelos dela incrivelmente escovados, e seu corpo enrolado por um chambre que iria desbotar ao longo dos invernos de minha infância. Minhas duas irmãs vestidas com o uniforme do colégio deixaram as aulas para me conhecer e de fora dos enormes ponchos, apenas seus rostos com pares de olhos inquietos e curiosos. Não me recordo se meu pai tirou a foto ou se está nela. Em todo o caso, é bem possível que ele estivesse encasacado, mas não muito mais do que isso. Talvez por não sentir tanto frio ou de repente, por tentar conviver pacificamente com ele sem ter de enfrentá-lo, combatê-lo. Eu sou a menor na foto, estou de casaco e calça de tricot de lã verde que me caem bem. Tenho as bochechas rosadas e cabelos fartos escuros. Apesar do frio daquele dia, todos na foto parecem quentinhos, não há expressão de incômodo, ao contrário, há conforto e uma idéia de movimento. Acredito que o movimento tenha sido mais do que uma idéia passada pela imagem registrada, afinal, a família mudara naquela manhã.
Mudança fala de movimento. E movimento pode querer dizer mais do que mudar de posição. A gente realmente pode, ao se movimentar, olhar de tantos outros modos possíveis, novos e diferentes. Depende um tanto das escolhas que fazemos.

***

Frio. Movimento.
Para mim uma relação natural. Desde a paisagem que se altera drasticamente no inverno, passando pelo gato arisco que pula para se aninhar no colo, sem esquecer das inúmeras idas a cozinha em busca de chás, molhos, temperos, sabores e cores para aquecer o corpo e fazer benfeitorias a alma.
Pois foi em 31 de Julho de 2009, no dia mais frio do que todos os outros que já presenciei em vida, que me deparei com mais um grande movimento, tão previsto e inevitável quanto à queda de temperatura neste inverno soberano. E por revelar-se mais um tanto de si, ganhou nome próprio. Chama-se Maísa.

A primeira carta a ele


Arrisco
porque sabes que adoro correr riscos
e experimentar esse amor diferente de
outros que já tive.

É melhor do que Skol,
chocolate,
sentar na grama em dia de sol,
dançar sozinha em casa,
bater papo por horas,
passar um dia inteiro com
minha mãe e minhas manas
em dia de show do Nando Reis.
Melhor ainda do que
ouvir Djavan e comer Brócolis,
ações tão complementares...

Enfim...
És a melhor de todas as melhores coisas
em minha vida...

Te agradeço.
Sigamos em frente.
Felizes,
pra sempre por enquanto.

Por enquanto e pra sempre.
Mudei a minha velha máxima.
Isso se deve ao otimismo que
só os apaixonados tem.
Fé na gente.

Escrito em algum momento do mês Outubro no ano de 2003...

Nós dois como gatos no telhado do mundo e pela frente só milênios de risada gargalhada
Não tinha reparado que as nuvens se movem
como que de mãos dadas.
Só é possível apreciar movimento tão lindo
quando passo algum tempo comigo.

Tenho em mim um céu azul que anda.
Que doce perturbar,
a ventania nos pés não cessa de trazer o que foi
e o que não é ainda.

Estranho esse novo deleite de me alcançar...

09/12/2008

Elas

marrom, bege, branco
tom sobre tom
riso com riso

de colo em colo

lua, sol, entardecer
momentos bem definidos
distâncias infinitas

amores desmedidos

casa, pátio, quarto
lugares que passam
outros que ficam

em garoas finas

se migram
se afligem
se buscam
se escondem

três vértices
de um ângulo que desliza

16/09/2008

Do almoxarifado II

O sorriso foi trocado pelo silêncio e isso é tudo. Mesmo procurando não se encontram detalhes que expliquem a troca. Ouve-se nenhum som. O papel repousa só, em branco. As pernas teimam em ficar na horizontal. As mãos ajustam as vendas nos olhos alheios. Como pode o vazio não conter nada se ele só contém ar? Ora, ar nesses tempos é farto.

Ele ocupa espaços como um porto cheio de embarcações e nelas moram bagagens imóveis de desassossego que de tão sossegado cerra os dentes, abafa a alma.

21/01/2009

Do almoxarifado I

nodo

soterrei-me nas cenas que montei
sou eu a protagonista
reclamei que foram injustos,
que estão desatentos
agora me vejo presa ao contentamento
dado pelas armadilhas que construí com tanto cuidado

o novelo não se desenrola sem que se puxe a ponta

30/10/2008

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A procissão dos aguapés


fosse um rito fúnebre
fosse uma outra celebração
era sublime

vê-los rumando, partindo
verdadeiros tapetes verdes
onde a Garça e o João de Barro
pegam carona

no teu lado
pingos cada vez mais espessos
formam um petit pois cinza

no meu não pinga
mas também não brilha
quase posso ver o azul
em fendas

e nós
nós seguimos indo
feito eles
feito o que éramos
feito o que já não somos mais

24/07/2010